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Flora

Texto de Paulo Silveira


No concelho de Miranda do Corvo, embora predominem campos agrícolas e plantações de pinheiro-bravo (Pinus pinaster Aiton) e eucalipto (Eucaliptus globulus Labill.), podemos ainda encontrar algumas áreas com espécies nativas de elevado interesse conservacionista. Por vezes surgem a delimitar campos agrícolas, ou como resultado da regeneração natural, por entre as referidas plantações. No entanto, as mais relevantes surgem nas faldas da Serra da Lousã. 

 
Nas encostas expostas a N e W predominam as espécies mais adaptadas ao clima Atlântico, como o carvalho-alvarinho (Quercus robur L.), o castanheiro (Castanea sativa Mill.), os azevinhos (Ilex aquifolium L.), heras (Hedera spp.) e diversas espécies de fetos, como a fentanha (Polystichum setiferum (Forssk.) Woynar) e o pente (Blechnum spicant (L.) Roth var. spicant).  

 
Nas encostas expostas a S e E, predominam as espécies mais adaptadas ao clima Mediterrânico, como a azinheira (Quercus ilex L.), o medronheiro (Arbutus unedo L.), o loureiro (Laurus nobilis L.), o sobreiro (Quercus suber L.) o aderno-de-folhas-largas (Phillyrea latifolia L.) e o aderno-de-folhas-estreitas (Phillyrea angustifolia L.).  

 
Por vezes, quando o micro-clima apresenta características intermédias, estas espécies misturam-se, formando comunidades com elevada riqueza específica. 

 
Onde a degradação dos solos já não permite a formação de comunidades arbóreas, surgem primeiro os matos-altos de giestas (sobretudo Cytisus striatus (Hill) Rothm.) e, depois, em áreas de solos mais incipientes, os urzais (Erica spp.). Neste caso, há uma predominância de urze-branca (Erica arborea L.) nas encostas expostas a N ou W, e de queiró (Erica umbellata Loefl. ex L.), nas encostas expostas a S e E.  

 
Nas imediações das linhas de água, a qualquer altitude, podem surgir os salgueiros, como a borrazeira-preta (Salix atrocinerea Brot.) e a borrazeira-branca (Salix salvifolia Brot.), frequentemente acompanhados pelo sanguinho (Frangula alnus Mill.). A altitudes mais baixas e a ladear os cursos de maior caudal, os amieiros (Alnus glutinosa (L.) Gaertn.) e os loureiros, dominam a vegetação ripícola melhor conservada. Um bom exemplo é a Ribeira de Espinho, nas proximidades de Galhardo, onde os loureiros atingem um porte e abundância consideráveis e, juntamente com os amieiros, diversas espécies de trepadeiras e fetos formam comunidades ripícolas bem conservadas e um ambiente aprazível e favorável ao contacto com a natureza. É também, o caso da vegetação nas proximidades de Gondramaz, nomeadamente no percurso e junto do Penedo dos Corvos, onde além de belas e relaxantes cascatas, podemos admirar uma vegetação não só rica em espécies de plantas vasculares, como de musgos e líquenes. 

 
De entre as espécies da flora vascular que podemos observar nestas áreas destacam-se, pela sua raridade, a Veronica micrantha Hoffmanns. & Link, um endemismo (espécie cuja distribuição se restringe a um determinado território) ibérico protegido no anexo II da Directiva Habitats, a anémona-dos-bosques (Anemone trifolia L. subsp. albida (Mariz) Ulbr.), um endemismo luso-galaico, cujas populações mais meridionais se encontram na Serra da Lousã e a erva-besteira (Helleborus foetidus L.), uma espécie que de toda a cordilheira central apenas é conhecida desta região, talvez devido à proximidade das serras calcárias de Condeixa-Sicó-Alvaiázere, onde é bem mais frequente.  

 
Por tudo isto, vale bem a pena visitar as terras de Miranda do Corvo e zelar para que sejam usufruídas de forma sustentável, assegurando a conservação do seu património biológico para as gerações vindouras.

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